terça-feira, 18 de janeiro de 2011

ANO NOVO, ESCOLAS E CONTAS A PAGAR

Início de ano novo significa colocar a casa em ordem. Rever pendências do ano anterior, planejar ações, definir metas etc. Para um trabalhador assalariado rever e prever possibilidades financeiras domésticas, ainda que indique um racionalismo, muitas vezes, distante daquilo que efetivamente nos move em nossas decisões corriqueiras, são necessárias e de bom alvitre. Tenho três filhos, dois deles estudando em escolas particulares e o mais novo, para alegria da família, ingressará numa escola pública de educação infantil de referência na cidade de Campina Grande.
Digo alegria, pois sou ardoroso defensor da universalização com qualidade das escolas públicas e, ao poder matriculá-lo nesse lugar, visto a notória qualidade educacional que apresenta, mitiguei um pouco a contradição que vivo ao ter os outros filhos em escolas onde o valor de mercado e o desejo de lucro prevalecem de forma mais ou menos intensa. Nessas escolas particulares, observei, com um pouco de estupor, que parece haver um acordo tácito entre elas que, pelo menos nos últimos anos, reajustam as matrículas num valor comum em torno de 10%. Não importando se a inflação esteve bem abaixo desse percentual ou se os responsáveis não tiveram aumento salarial compatível com esse aumento. Agrava-se a situação ao constatarmos a não apresentação e/ou divulgação da planilha de investimentos e custeios, sem qualquer abertura de negociação com os pais, conforme prevê a lei 9.870, de 23 de novembro de 1999. Numa das escolas, a qual minha filha mais velha está matriculada, considerada a melhor da cidade, pois assim se apresenta com suas instalações admiráveis, com seu marketing vinculado as aprovações nos ENEMs e vestibulares, qualquer possibilidade de rever os valores, considerando a materialidade da vida, é ignorada pela impessoalidade das normas, que nos homogeneíza com os pais “empresários” que, certamente, estão pouco preocupados com algo tão “insignificante” como o aumento das mensalidades escolares.
Pensando bem, aqui vai uma mea culpa, ao querer ver nossos filhos em “boas” escolas, acabamos por negligenciar o potencial que teríamos se estivéssemos presentes nas instituições públicas, essas mesmas sucateadas de hoje, e nos mobilizássemos para reivindicar dos gestores municipais e estaduais políticas públicas efetivas para a educação escolar: professores bem remunerados, material didático à disposição e adequado, infra-estrutura renovada, proposta pedagógica e gestão compartilhadas, merenda escolar nutritiva e sem interrupções ao longo do ano, entre outras. Talvez, ao querermos o melhor imediato para nossos filhos, nos afastamos das possibilidades de valorização dos espaços públicos em nossa sociedade e acabamos por incentivar o mercado educacional que, indubitavelmente, é divergente de uma qualidade de ensino-aprendizagem socialmente referenciada.