segunda-feira, 11 de julho de 2011

NOVA CRUZADA SANTA: HOMOFOBIA E PROSPERIDADE

Nos últimos meses assistimos um crescimento do debate em torno da criminalização da homofobia, sobretudo, considerando o trâmite no Congresso Nacional do PLC 122/2006 que, entre outros aspectos, define os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero. O incomodo em tudo isso, para ser bem direto, é presenciar a formação de uma nova cruzada santa nacional em oposição ao projeto de lei, assumida por boa parte dos líderes evangélicos locais até os renomados mensageiros midiáticos. Poderia citar alguns exemplos atuais desse movimento de perseguição aos infiéis como: abaixo assinados, encontros, mobilizações virtuais e lobbies em Brasília, mas me detenho num acontecimento vivido em minha comunidade, por época das últimas eleições presidenciais, quando um vídeo foi apresentado ao final da preleção para caracterizar o perigo que representava determinadas forças políticas e o quanto deveríamos nos opor naquele momento de disputa eleitoral. Sem dar a devida atenção ao grotesco proselitismo, comum em nossas comunidades evangélicas, o que saltou aos olhos, mais imediatamente, foi o conteúdo do vídeo que se aproximava fortemente, e perigosamente, de uma incitação ao acirramento dos ânimos em relação aos homossexuais. Não pretendo elaborar nesse ensaio nenhum tratado teológico ou jurídico sobre essa querela, mas simplesmente perguntar: por que os líderes evangélicos não levantam a bandeira tão enfaticamente quanto o fazem em relação à questão da homofobia, contra o estado de miséria social e econômica em que vivem milhões de brasileiros? Contra a concentração aviltante de renda, caracterizando o Brasil como um dos países mais desiguais do mundo? Contra a corrupção econômica e política tão presente em nosso contexto? Ou mesmo contra a degradação ambiental tão acelerada atualmente. Imagino que se tivéssemos ao menos metade do ânimo que estamos apresentando nessa questão cruzadística, não tenho dúvidas, nossa sociedade teria menos iniquidades. Contudo, preferimos nos acomodar ao imediatismo do assistencialismo das muitas sopas semanais ou a valorização, tão antiga quanto anacrônica, do incentivo reducionista do cristão benevolente, ou seja, aquele que se contenta em ajudar ao próximo, exclusivamente, por meio de esmolas. E, ainda, de forma mais drástica nos acomodamos cada vez mais ao discurso da prosperidade, afinal nutrir o valor de prosperidade numa sociedade capitalista, desigual, estratificada, consumista, miserável e corrupta não é incompatível.

Certamente, não tem compatibilidade com os valores bíblicos, quando nos ensina a tomar nossa cruz e segui-Lo. A espiritualidade em grande parte das nossas igrejas tem sido vivida na condição de consumidores individuais ávidos por prosperidade material (e seus similares) e, ao mesmo tempo, de forma contraditória, com a promessa dicotômica de outro mundo que nos desencarna de qualquer projeto de intervenção em nossa sociedade. Algo completamente em desacordo com a integralidade do evangelho.

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